
Pela janela do quarto passa a luz que desperta logo cedo, cega os olhos anunciando que o dia começou. Vemos por ela a previsão do tempo, vestimos um casaco se o vento gelado sopra ou usamos óculos escuros se o sol estiver brilhando forte, mesmo assim o imprevisível está lá fora.
Pela janela do carro vemos outros passando pelo lado, os carros. No mesmo sentido de mão, mas guiados sem sentimento algum, vazias, as pessoas. Vindo em direção contrária em cores e modelos diferentes, em duas ou quatro janelas, eles, apressados, agoniados, incoerentes causadores de acidentes.
Janela fechada é ar condicionado em dia quente de trânsito lento.
Janela aberta é a arma na cara, a multa na mão, um pedinte em direção.
Toc-toc na janela entreaberta no semáforo, quem é? É uma bala, um chiclete, um doce nas mãos da criança de rosto sujo, cabelo despenteado. Olhos tristes ficam ao ouvir secamente um NÃO ao mesmo tempo em que o vidro da janela sobe.
Da janela do vigésimo sétimo andar, olhar inclinado para as pessoas lá embaixo na avenida ( neste caso a Paulista ), pequenas como formiga, caminhando em várias direções com sentidos focalizados diferencialmente em coisas simples e também complexas, que de certa forma as motivam e as fazem continuar os passos. Será? 14 minutos se passaram nesta observação com um café em mãos, já são 05h09min PM, hora de ir embora.
Toc-toc na janela entreaberta, quem é? É o cartão do estacionamento esquecido entregue pelo capitalismo fardado, disfarçado. 14 reais pagos para proteger um bem, junto com o cartão vêm o troco de 1 real em moeda, a mesma que poderá comprar amanhã o doce rejeitado de hoje. Será?
Pela janela passam vidas, passam carros, avenidas. Sempre do lado de cá isolamos o lado de lá por esta fina camada. Janela nos separa, nos distancia, dificilmente aproxima.
Janela é devaneio em dias de angustia, amargura.
Janela é preocupação em noites de insônia.
Janela é olhar inspirado para o nada na esperança de que tudo aconteça diferente no dia seguinte.
( Na falta da janela a varanda )
E assim sempre foi e assim sempre será: Janelando, janelando e janelando…
